Exposição de arte colectiva: Os Nacionalistas – Vamos Fazer Historia

Do dia 26 a 28 de Março o espaço Elinga acolheu um evento cultural multidisciplinar envolvendo artes plásticas, dança, teatro e música.

O Elinga-Teatro é uma entidade cultural marcante na sociedade angolana. A destruição do seu edifício-espaço faz desaparecer com ele toda uma vivência que é necessária dar a conhecer aos presentes com uma celebração, aos vindouros, com os registos deste legado.

O “VAMOS FAZER HISTORIA” é uma homenagem ao edifício histórico que alberga, uns anos a esta parte, o Elinga-Teatro, espaço multicultural que desaparece agora. A programação é orientada no sentido de abranger as disciplinas artísticas que aqui se desenvolveram, assim como as pessoas a elas associadas.

Os Nacionalistas: texto de Vladimir Prata

MOVIMENTO ARTÍSTICO OS NACIONALISTAS

Grupo Nacionalistas
Uma jangada no alto mar das artes contemporâneas

Vladimir Prata

Quando, no final do século passado e inicio do novo milênio, entrei no mundo do jornalismo, a Mutamba continuava a ser o centro de todas as coisas, dos factos e argumentos, onde quase tudo acontecia. A capital de Luanda, e de Angola também. À sua volta, políticos, economistas, artistas e cidadãos comuns como o simples ardina e a irmã zungueira confluem e partilham pontos de vista, sonhos e expectativas, desaires e frustrações. Alguns acabam por encontrar soluções para os seus anseios onde menos se espera, outros, de quem muito se espera, acabam sem solução e fora do circuito.

Encontrei então a minha escapatória no jornalismo cultural, muito por influência de um grupo de amigos irreverentes demais para ter que seguir a mesma onda, mas ao mesmo tempo dinâmicos ao ponto de revolucionarem sobretudo as artes visuais no país. Sem me aperceber, comecei a segui-los de perto. Soube, desde logo, que atendiam pelo nome de Nacionalistas, e que trabalhavam particularmente no interior da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), por vezes no Elinga Teatro, edifícios já naquela altura assombrados pelo medo do camartelo e pela inércia das instituições, por isso votados ao abandono. Lugares perfeitos para a marginalidade.

E por vezes é assim que eram vistos, como marginais, já que decidiram juntar-se num grupo que mesmo sem ter qualquer cunho jurídico, como estatuto de associação ou algo que a isso se parecesse, criam movimentos artísticos capazes de se tornar tão mediáticos quanto os eventos realizados pelas instituições “credenciadas” para o efeito. Toda essa marginalidade exigiu, porém, aos jovens Nacionalistas que olhassem para o horizonte em busca de uma tábua de salvação, ou bússola orientadora para o porto seguro que pouco tempo depois veio a se revelar ser a arte contemporânea.

A minha entrada no circuito deste pequeno mas significativo segmento de artistas foi monitorada por Lino Damião, artista plástico que mantinha um pequeno e quase sempre escuro atelier nos fundos do primeiro piso do edifício Mendes Valladas (UNAP), antes utilizado pelo seu pai, o fotógrafo do Jornal de Angola Paulino Damião, vulgo “50”, como estúdio de revelação para fotografias analógicas. Pelo Lino conheci todos outros membros dos Nacionalistas de que tenho memória: Yonamine, Gimby, Mateus Mário, Mwamby Wassaky (que depois veio a se revelar melhor como estilista), Tho Simões (que além de pintar é designer gráfico), Maniloy (cartunista), SD Zabila, Zizi Grácia Ferreira (que na fase crucial da formação do grupo fixaram-se em Portugal), Celita (Marcela Marcos), Marcos Kabenda, Nelo Teixeira (primeiro como carpinteiro que ajudava o grupo com a montagem de aros, palcos, entre outros serviços), Ihosvany, Kilwanji Kia Henda (como músico trovador), Raúl do Rosário e Fábio Cassule (como actores de teatro e capoeristas), entre outros, uns bastante enraizados, outros mantendo uma relação tênue com o grupo.

As atividades dos Nacionalistas incidiam-se sobretudo nas artes plásticas, já que grande parte dos seus membros tinham formação nesta área, e alguns até estavam inscritos na Brigada Jovem de Artistas Plásticos, com ligação à UNAP. Estes tinham como referências figuras como Viteix, Antônio Ole, Zan Andrade, Fernando Alvim, Tirso Amaral, entre outros grandes. Entretanto, cedo descobriu-se que não se tratava apenas de pintura, escultura, colagem ou outras disciplinas das artes plásticas, já que o teatro, música, moda, fotografia e outras performances artísticas se juntaram a etapa inicial dos Nacionalistas. A primeira evidência disso ficou expressa num evento realizado no largo da Mutamba, para saudar o dia do Herói Nacional, 17 de Setembro.

Uma onda de eventos semelhantes correu durante os primeiros anos dos Nacionalistas. Todos eram marcados pela presença das artes plásticas, mas apenas alguns juntavam outras disciplinas como teatro, música e moda. “Portas Abertas (1 e 2), “ArteModa”, “Multiplicarte”, “Conlatas”, etc, são alguns destes eventos de que se tem memória. A par disso, alguns artistas expunham individualmente ou de forma colectiva as suas obras, cujas mostras tinham quase sempre como palco o Elinga Teatro, por oferecer salas de exposição e de espectáculos.

Nessa altura, os fazedores de arte eram animados pela presença de alguns midia, sobretudo do Jornal de Angola onde eu já me encontrava a trabalhar, primeiro na editoria social “Gente”, depois como repórter de “Cultura”. Mas, mais do que isso, eram agraciados com a venda de algumas obras. Os compradores eram mais ligados à comunidade internacional, mas também alguns empresários nacionais, dentre os quais se destaca Nuno Pimentel que, além disso, estava sempre disposto a apoiar os eventos promovidos pelos Nacionalistas e que veio a se tornar um dos maiores colecionadores de obras de artistas plásticos nacionais.

Em 2004, reaparece na Mutamba o artista Fernando Alvim, vindo da diáspora, e com ele o seu projecto TACCA – Territórios de Arte e Cultura Contemporânea de África, ao qual fui chamado para trabalhar como assessor de imprensa. Seria a ante-câmara da Trienal de Luanda que veio a acontecer em 2007 e depois 2010, e que se revelou, até certo ponto, como a bússola que muitos artistas, inclusive do grupo Nacionalistas, precisavam para se orientar. Patrocinada pela Fundação Sindika Dokolo, o TACCA passou também a reunir obras de artistas nacionais para criar o seu espólio, incentivando o aumento da produção.

Daí os Nacionalistas não mais pararam. Como uma jangada, lançaram-se ao alto mar, descobrindo novos mundos e tornando-se referências da arte contemporânea africana feita por angolanos. Alguns deles mantêm este estatuto na diáspora e com algum sucesso, consagrando a nova geração de artistas nacionais que emigraram em busca de melhores oportunidades.

Contacto Telefonico

(+244) 930 340 168

 

Horários de abertura

Terça-feira - Domingo | 10h00 - 18h00
(Incluíndo feriados)

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